segunda-feira, 27 de julho de 2009

O ato de enjoar.

Aprecio a voracidade dos sentimentos. No fundo no fundo, é só isso que se espera; voracidade. É isso que faz você comprar um doce com tanta ânsia e enjoá-lo depois da terceira mordida. É desejar tanto uma coisa e, ao tê-la, desligar-se dela como se nunca a tivesse querido. O necessário, no fim, é tê-la alí, ao seu dispôr.
Nenhum de nós foge à regra, meus caros; longe de mim estar a parte disso.

sábado, 25 de julho de 2009

Insônia - 2ª carta

Estava mirando a rua através de meu minúsculo apartamento de 20º andar, localizado no centro de uma cidade que funciona sem parar durante 24h. Estava camuflado em minha veste preta aconchegante em meio à penumbra, o vento gélido soprava com rigor em minha face como que por provocação. Uma versão em órgão de Toccata and Fugue in D minor ambientava a empoeirada sala. Exceto meu sofá vermelho rubro e as luzes coloridas que vinham das janelas, tudo era de um azul acinzentado mórbido, deprimente. Eu estava perdido em meus pensamentos. Mecânicamente, moví-me até a cadeira da escrivaninha onde ficava minha máquida de escrever. Em um movimento fulgaz, tirei meu casaco de gola rulê e pus-me a pensar: tudo que eu menos precisava era de aconchego naquele momento, pelo menos não de um vindo de uma roupa. A música estava no auge do suspense e eu, realmente, não sabia se escrevia ou se mirava a janela novamente. Ainda sentado, empurrei a mesa pesada à minha frente, que se recusou a se afastar me lançando, ainda sentado, em direção à janela; entendi que alí estava minha resposta. A música começava a acelerar. Pude ver o prédio a frente; a moça loira que dormia com as luzes acesas em sua magestosa cama ocre. Desejei infinitamente estar com ela, tê-la em meus braços, atritar nossos corpos em movimentos calóricos e precipitados e, enfim, umidecer-mo-nos juntos. Grande besteira. Eu não iria lá fora e, mesmo que fosse, ela sequer me notaria. Voltei o olhar um andar acima e vi aquele rapaz que estava sempre alí a essas horas com seu provável único amigo -um computador- . Era pálido, senão pelo avermelhado que sua acne provocara, profanando a semi-perfeição de seu rosto. Deveria ele ser um pouco mais alto que eu e ainda um pouco mais sem expressão também. Virou-se rápido para o lado e pôde me ver. Permaneci imóvel, como uma estátua de gesso e, por um tempo, até convencí-me de ser uma, mas aparentemente não funcionou com minha vítima. Ele levantou, pôs a andar para frente, em direção à sua janela, vindo para mais perto de mim, sem desviar o seu olhar de mim. Minha expressão não estava mudada. Eu o encarava sem pretenção, sem pensamentos, sem nada. Ele acenou um oi despretencioso e eu, em uma meia volta ignorei-o. Fui para um lugar mais escuro, onde sabia que poderia ser observado sem nenhum risco. Deitei-me devagar naquele sofá vermelho que parecia querer me explusar dele. Ouvi a cidade, a música e meus pensamentos.
Dormi por me cansar da monotonia que o dia me tivera trazido e tentei não pensar que esse mesmo dia se repetiria amanhã e depois e depois, com o mesmo garoto da frente me observando, com a mesma mulher loira despreocupada comigo, com o mesmo tudo.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

In.sô.nia - primeira carta

Eu tenho insônia. Estou escrevendo isso, aliás, pois agora, hora em que eu deveria, como toda pessoa normal, estar dormindo, estou aqui. Sabe o que é deitar e ouvir cada barulho? Os cães latem, vez ou outra um automóvel passa na rua, ouço a voz de uma mulher que grita com seu amante por um motivo que desconheço e o vizinho que está reclamando de seu dia cheio com o filho. Concentro-me mais um pouco e vejo as cenas do cotidiano mediocremente normal: as mesmas pessoas de sempre, a fadiga que tenho em olhá-las, a obrigatoriedade que tenho de lhes retribuir gracejos duvidosos ou de, por ventura, me incluir em seus diálogos. Logo me canso e volto-me a mim mesmo, só que dessa vez para pensar em nada ou em tudo ao redor. Penso em como seria se eu não fosse tão adepto ao Byronismo ou às ideologias de Nietchzs. Quão boa deveria ser a vida! Quão viva! Ao invés disso, me queixo de mim, dilacero cada esperança, me perco de Deus e dos deuses, penso como deve ser além da vida e se lá, ao menos eu poderia saber a verdade de tudo ou se porventura eu não teria mais memória de nada. Eu queria mesmo era me esquecer de mim para, enfim, esquecer de tudo.

domingo, 31 de maio de 2009

Melhores amigos (?)


Ataca, fere e ama
Ama, brinca e reclama
Reclama, magoa, se arrepende
Se arrepende, se desculpa, mas não perdoa.

Não perdoa, perde
Perde, procura, não acha
Não acha, chora, se lembra
Se lembra, perdoa, pede, ama
E ama, e brinca, e fere, e ataca e reclama.

Enfim, como isso se chama? [...]



Alguém achou por aí minha sanidade? Favor, devolver o quanto antes. (Só espero que não esteja no mesmo lugar onde puseram a descência de alguns...)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Gilberto vai com os outros.

Na minha escola, o mau-humor parece consumir todos os funcionários. Eu estava num momento meu, muito meu, fugindo da 'parada de troca de comando' (pra os que não sabem, quando acontece alguma coisa de muita importância na escola, temos aquelas paradas militares que duram três horas de puro sol na cara e posição imóvel, sabe?). Para tal peripérsia, assumi o posto de sub-xerife (que sempre fica na porta da sala em paradas matinais, mas não em paradas como a que estava acontecendo). Até aí tudo bem, meu cinismo é ótimo nessas situações. O problema todo foi eu inventar de sair pra tomar café na cantina. Volto eu do meu percurso sala-cantina com um strudel tamanho GG e um copo de 350ml de refrigerante de guaraná em mãos, um cada em cada mão, evidentemente, concentrando-me para que o refrigerante não transbordasse do copo enquanto eu andava, quando sou surpreendido por uma sargento-vigia do pavilhão:
- Aluno!
- Ooooi?! - Só com essa fala, acabo de assumir completamente o erro. Vulgarmente, "a máscara me serviu". - É comigo? - Muito bem disfarçado. Agora sim...
- Fazendo o quê fora da sala? - olha fulminantemente para o meu strudel, que pareceu murchar ao ser encarado - E com comida ainda?!
- Ah, tenente...
- Sargento! - ela exclama, me interrompendo.
- SÉRIO?! CAAAAARA DE TENENTE! - Lição dois: sempre amacie o ego de militares. Eles adoram. - Mas então, como eu ia dizendo, cheguei na escola atrasado e sem tomar café ainda. O carro de meu pai foi quebrar logo no meio do caminho. Já falei com o tenente e ele permitiu. Que eu comesse alguma coisa.
- Sim... mas o que faz você estar indo para a sala e não para o corpo de alunos? (lugar onde eu, evidentemente, deveria ter ficado o tempo todo)
- Ah, tenen... sargento, eu vi algumas pessoas na porta de suas salas e fiquei também.
- Quer dizer então que se todo mundo pular de um prédio você também pula?
- Ah, isso vai depender do que tem em cima do prédio ou do que está debaixo dele. - depois de dizer isso, caprichei na cara de aluno-fofo-inocente.
Ela segurou o riso e mandou que eu voltasse para a sala.


Nada como alegrar um momento para salvar o próprio dia.

terça-feira, 19 de maio de 2009


Para os fiéis, traição
para os amigos, indiferença
para os atentos, distração
para os amantes, repulsão

Para tudo, nada
para o sábio, ignorância
para o celibato, tara
para o gentil, arrogância

Encarecidamente, peço que me deixem esquecer. O meu me importar está cada vez mais irritante, eu cada vez mais falante e, por falar, errante. Aprenderei que ignorar é virtude, que ser igual é ter atitude e que apenas um sorriso basta.
Dedicar-me-ei à literatura: os contos são sempre muito mais fascinantes que a vida real. Talvez eu escreva um conto sobre quem eu seria se não estivesse correspondendo às expectativas.
Todos os domingos irei à igreja, rezarei pelo mesmo Deus de todos. Ao fim, tomarei a hóstia em gesto de respeito e devoção depois de já ter contado todos os meus erros à única pessoa que deve conhecê-los.
Deixarei de ser prolixo, elíptico, paralelista e conotativo; direi tudo de uma forma resumida e clara.

Ao fim de cada dia, deitarei em meio ao escuro virado para a parede, suspirarei duas ou três vezes contendo o choro, pedirei a mim mesmo para ter calma e, logo em seguida, irei dizer que amanhã tudo se resolverá, sendo retórico comigo mesmo.



Diário de William Frade.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Só pra acabar de matar.


Odeio mentir, mas sou perito na arte. Acontece que ser perito quando não se tem cautela é pra lá de desastroso.



TEXTO BARROCO. Me lembrem de explicar depois. Umbeijo.